Déficit de quase 440 mil trabalhadores pressiona setor americano; especialistas alertam que novas regras migratórias exigem processos mais estruturados e iniciados ainda no Brasil
Os Estados Unidos enfrentam uma falta histórica de profissionais na construção civil justamente em um momento de endurecimento das políticas migratórias. Um relatório da Associated Builders and Contractors (ABC) estima que o país precisará contratar ao menos 439 mil novos trabalhadores em 2025 para atender à demanda atual do setor. O déficit atinge áreas como engenharia, elétrica, arquitetura, encanamento, infraestrutura e operação de máquinas pesadas.
Ao mesmo tempo, o aumento das deportações e as novas restrições sobre ajustes de status dentro dos Estados Unidos vêm mudando a forma como brasileiros interessados em trabalhar legalmente no país precisam planejar a imigração.
Segundo dados da National Association of Home Builders (NAHB), cerca de 30% da mão de obra da construção civil americana é composta por imigrantes. Em alguns estados, esse percentual ultrapassa 50%. A retração migratória começou a afetar diretamente cronogramas de obras, custos operacionais e disponibilidade de profissionais qualificados.
De Houston, no Texas, Daniel Toledo, especialista em Direito Internacional, fundador da Toledo e Advogados Associados, afirma que o cenário abriu oportunidades para trabalhadores estrangeiros, mas também aumentou a necessidade de planejamento jurídico e financeiro. “Os Estados Unidos continuam precisando de mão de obra estrangeira para sustentar setores estratégicos da economia, principalmente construção civil e infraestrutura. A diferença é que agora os processos exigem muito mais cuidado técnico, planejamento prévio e organização documental”, afirma.
Segundo Toledo, muitos brasileiros ainda acreditam que podem entrar como turistas e resolver a situação migratória posteriormente dentro dos Estados Unidos. Porém, as novas diretrizes migratórias tornaram o ajuste de status mais rigoroso e aumentaram o risco de negativas por suspeita de intenção imigratória prévia. “Hoje existe uma fiscalização muito mais severa sobre pessoas que entram nos Estados Unidos com visto de turismo e tentam alterar o status migratório rapidamente. Em muitos casos, iniciar o processo ainda no Brasil passou a ser juridicamente mais seguro”, explica.
Quais profissionais podem se beneficiar da demanda americana?
A escassez de trabalhadores não se limita a funções operacionais. Segundo especialistas do setor, existe forte procura por engenheiros civis, arquitetos, eletricistas, soldadores, técnicos industriais, operadores de máquinas, gerentes de obra e profissionais especializados em infraestrutura.
Além disso, empresários brasileiros do setor de construção civil também passaram a avaliar a abertura de operações nos Estados Unidos diante da alta demanda local. “Existe espaço tanto para trabalhadores qualificados quanto para empresários que desejam expandir negócios ligados à construção, reformas, engenharia ou serviços técnicos”, afirma Toledo.
Como começar o planejamento migratório?
Segundo o especialista, o primeiro passo é entender qual categoria migratória se encaixa no perfil profissional do candidato. Entre os caminhos mais utilizados estão vistos de trabalho especializado, vistos para empresários e categorias destinadas a profissionais com experiência técnica diferenciada.
Toledo afirma que um dos erros mais comuns é iniciar o processo sem organização financeira ou documental adequada. “Muitas pessoas procuram o processo migratório sem sequer possuir documentação básica organizada. Isso aumenta riscos, atrasos e até negativas”, diz.
Quais documentos devem ser separados?
Entre os principais documentos normalmente exigidos em processos migratórios estão:
- Passaporte válido
- Diplomas e certificados profissionais
- Histórico profissional detalhado
- Contratos de trabalho ou prestação de serviços
- Declarações de experiência profissional
- Comprovantes financeiros e bancários
- Declarações fiscais e imposto de renda
- Certidões pessoais e antecedentes criminais
- Registros empresariais, quando aplicável
Segundo Toledo, quanto mais sólida for a comprovação da experiência profissional e da capacidade financeira do candidato, maiores tendem a ser as chances de sucesso no processo.
Como escolher um advogado de imigração?
O crescimento da demanda também aumentou a quantidade de consultorias sem licença jurídica atuando no mercado migratório. Para Toledo, esse é um dos pontos que mais exigem atenção dos brasileiros.
“Muitas pessoas acabam caindo em promessas irreais feitas por consultorias sem autorização para atuar juridicamente. O ideal é verificar se o profissional possui licença válida, experiência prática em imigração e histórico real de atuação internacional”, alerta.
Ele afirma que o processo migratório americano envolve legislação federal complexa e mudanças frequentes de entendimento por parte das autoridades americanas. “Não é apenas preencher formulários. Existe estratégia jurídica, análise de risco migratório, estrutura documental e planejamento financeiro envolvidos”, explica.
Existe um momento melhor para aplicar?
Segundo Toledo, não existe exatamente uma “época ideal”, mas há momentos econômicos mais favoráveis dependendo do setor profissional. “No caso atual da construção civil, estamos vivendo uma janela muito importante porque existe déficit real de mão de obra e pressão econômica sobre o setor. Isso naturalmente aumenta a busca por profissionais qualificados”, afirma.
O especialista alerta, porém, que processos migratórios internacionais exigem preparação de médio prazo. “O maior erro é tomar decisões por impulso ou baseado apenas em vídeos de internet e promessas rápidas. Imigração legal exige planejamento”, conclui.
Dados do U.S. Census Bureau mostram que os gastos com construção nos Estados Unidos ultrapassaram US$2 trilhões em 2024, mantendo o setor entre os pilares da economia americana. Já entidades do setor estimam investimentos de US$1,2 bilhão em programas de capacitação profissional nos próximos anos, embora os novos trabalhadores formados só devam chegar plenamente ao mercado por volta de 2030.





