Às vésperas das eleições brasileiras, Daniel Toledo analisa risco de novas sanções contra autoridades, tarifaço, vistos, pressão americana sobre o PCC e os limites de uma escalada entre os dois países
O possível encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump nesta terça-feira (22), durante a 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, ocorre em um dos momentos mais delicados da relação entre Brasil e Estados Unidos nos últimos anos. Lula fará o tradicional discurso de abertura, seguido por Trump, o que pode colocar os dois frente a frente nos bastidores, embora não exista até agora uma reunião bilateral confirmada. O encontro ocorre a menos de duas semanas do primeiro turno das eleições brasileiras e depois de um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) apontar risco de influência ou interferência americana no processo eleitoral.
Daniel Toledo, advogado especializado em Direito Internacional, fundador da Toledo e Advogados Associados, avalia que um eventual contato entre os presidentes poderá ultrapassar o protocolo diplomático. Tarifas, possíveis sanções contra autoridades brasileiras, eleições, combate ao crime organizado, vistos e a relação comercial entre as duas maiores economias das Américas estão entre os assuntos capazes de definir os próximos capítulos da relação bilateral.
A temperatura aumentou nos últimos dias. Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, um documento apresentado pelo governo americano durante negociações tarifárias anteriores incluiu entre suas demandas questões relacionadas à participação de “dissidentes políticos” nas eleições brasileiras e a minerais críticos. Lula afirmou na quinta-feira (17) que as exigências foram rejeitadas pelo governo brasileiro.
No sábado (19), veio outro componente. A Agência Brasil confirmou a existência de relatório da Abin que aponta risco de influência ou interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras e menciona possibilidade de aumento da pressão americana sobre o país.
Para Toledo, porém, novas medidas americanas não significam necessariamente que Trump teria interesse em ampliar o conflito durante um eventual contato com Lula.
“A tendência, na minha avaliação, é justamente que Trump se mostre amigável e aberto à possibilidade de um acordo. Ele utiliza muito a ameaça como instrumento de negociação, aumenta a pressão e depois pode recuar quando existe espaço para negociar”, afirma.
Novas sanções contra ministros do STF?
Outro assunto que coloca Daniel diretamente no noticiário desta semana é a possibilidade de novas sanções americanas contra autoridades brasileiras.
Em julho de 2025, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos aplicou sanções ao ministro Alexandre de Moraes com base na Global Magnitsky Act. Na ocasião, o governo americano acusou o magistrado de violações relacionadas a direitos humanos. As acusações partiram formalmente do governo dos Estados Unidos e foram contestadas no Brasil.
Agora, o assunto voltou ao noticiário. Autoridades americanas ouvidas pelo UOL afirmaram que novas sanções contra ministros do STF podem voltar a ser consideradas pelo governo Trump.
Toledo avalia que a aplicação de medidas contra autoridades específicas precisa ser separada de eventuais ações contra o Brasil como país.
“Trump ainda pode recorrer a sanções individuais e utilizar esse tipo de ameaça como pressão. Mas existe uma diferença muito grande entre sancionar uma determinada autoridade e criar uma medida que atinja toda a população brasileira”, afirma.
Essa diferença também é importante quando o assunto são vistos.
Trump poderia restringir vistos de brasileiros?
Com o aumento das divergências entre os governos, uma das dúvidas que pode chegar ao brasileiro comum é se Trump poderia utilizar vistos como instrumento de pressão.
Toledo considera improvável uma restrição generalizada motivada exclusivamente pelo conflito político com o governo Lula.
“Eu não acredito que haja muito espaço para uma medida ampla contra vistos de brasileiros simplesmente por causa da relação política com o Brasil. Uma decisão desse tamanho poderia provocar questionamentos jurídicos. Medidas específicas contra determinadas autoridades são uma situação completamente diferente”, explica.
Segundo o advogado, brasileiros que pretendem viajar, estudar, trabalhar, investir ou morar legalmente nos Estados Unidos não deveriam interpretar automaticamente o conflito entre os governos como uma mudança nas regras migratórias.
“Uma crise diplomática não significa que o brasileiro que está fazendo seu processo legal de imigração perdeu a possibilidade de obter um visto. É preciso separar as duas coisas”, diz.
Tarifaço continua no centro da disputa
A maior pressão concreta sobre a relação bilateral continua sendo comercial.
As tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil chegaram a uma combinação de alíquotas adicionais que, para determinados produtos, soma 37,5%. Depois de uma conversa de 1 hora e 20 minutos entre Lula e Trump em 21 de agosto, os dois governos retomaram as negociações.
Uma nova rodada já está prevista: representantes brasileiros e americanos devem voltar a discutir as tarifas durante reunião do G20 nos dias 30 de setembro e 1º de outubro, em Milwaukee, nos Estados Unidos.
Para Toledo, existe um elemento econômico que limita uma escalada: os Estados Unidos vendem mais produtos ao Brasil do que compram.
Dados do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) mostram que o comércio de bens e serviços entre os dois países chegou a US$ 135,7 bilhões em 2025.
Somente em mercadorias, os Estados Unidos exportaram US$ 54,3 bilhões ao Brasil e importaram US$ 39,9 bilhões. O resultado foi um superávit americano de US$ 14,4 bilhões — mais que o dobro do registrado em 2024. Nos serviços, o superávit americano alcançou US$ 27,4 bilhões.
“Quando os Estados Unidos criam uma barreira comercial contra o Brasil, não existe consequência apenas para o brasileiro. Há empresas americanas que exportam para cá e cadeias produtivas que dependem dessa relação. Uma escalada pode produzir custos para os dois lados”, afirma Toledo.
Para o advogado, esse é um dos principais elementos que podem empurrar Lula e Trump para a negociação.
“Por mais duro que seja o discurso político, chega um momento em que empresários, produtores e consumidores começam a sentir os efeitos. É aí que a realidade econômica entra na mesa”, diz.
PCC coloca segurança na relação entre Brasil e EUA
Outro assunto que pode aparecer na relação bilateral é o crime organizado.
Em julho, o Departamento do Tesouro americano anunciou sanções contra dois brasileiros, três empresas brasileiras e uma companhia portuguesa por supostos vínculos com o Primeiro Comando da Capital (PCC). O governo americano classificou a facção como uma ameaça crescente à segurança dos Estados Unidos e afirmou que integrantes e redes associadas ao grupo atuam inclusive em território americano.
O tema também deve aparecer no discurso brasileiro na ONU. Segundo informações divulgadas antes da viagem, Lula pretende abordar o combate ao crime organizado, ao lado de assuntos como soberania, multilateralismo e conflitos internacionais.
Para Toledo, esse assunto pode abrir uma nova frente de cooperação, mas também de divergência.
“Crime organizado transnacional exige cooperação. O ponto sensível é até onde essa cooperação vai e quais são os limites para que um país não interfira na jurisdição do outro. É uma discussão que envolve investigação financeira, lavagem de dinheiro, sanções e soberania”, afirma.
Eleições brasileiras entram no radar
A proximidade das eleições adiciona outro componente ao encontro.
O relatório da Abin, segundo a Agência Brasil, foi encaminhado à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Ministério da Justiça. O documento aponta risco de interferência externa e relaciona a preocupação brasileira à política dos Estados Unidos para a América Latina.
Lula deve defender em seu discurso na ONU a não interferência nos assuntos internos dos países e o respeito à soberania.
Toledo avalia que um eventual confronto verbal entre os dois presidentes precisa ser observado também sob o ponto de vista econômico.
“Hoje existe uma interdependência que limita determinadas ações. Qualquer pressão dos Estados Unidos contra o Brasil pode provocar respostas políticas, diplomáticas ou comerciais. Por isso, não basta analisar apenas a primeira consequência de uma medida”, diz.
Ormuz conecta encontro a petróleo, dólar e inflação
O cenário internacional adiciona outro tema sobre o qual Toledo pode analisar os impactos para o Brasil: o Estreito de Ormuz.
A situação permanece no centro das preocupações do mercado de energia. No relatório mais recente, divulgado em 9 de setembro, a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA) informou que o barril do Brent teve média de US$ 91 em agosto, US$ 7 acima de julho. A agência atribuiu parte da alta às restrições às exportações do Oriente Médio, ao bloqueio americano às exportações iranianas e às novas sanções contra interesses econômicos e petrolíferos do Irã.
A pressão americana continua. Na última quinta-feira (17), o Departamento do Tesouro anunciou novas sanções contra uma estrutura financeira iraniana acusada de utilizar ativos digitais para contornar restrições internacionais.
Para Toledo, Ormuz transforma uma crise geopolítica distante em um assunto diretamente ligado ao bolso.
“Quando se fala em Ormuz, estamos falando de petróleo. E quando o petróleo sobe, o impacto pode chegar ao transporte, à inflação, às cadeias produtivas e ao câmbio. É por isso que uma crise entre Estados Unidos e Irã também interessa diretamente ao Brasil”, afirma.
A posição brasileira acrescenta outra camada à discussão. Brasil e Irã integram o Brics, enquanto Trump tem aumentado a pressão sobre Teerã.
“Quanto maior a tensão entre Estados Unidos e outros grandes blocos, maior tende a ser a procura por alternativas comerciais, financeiras e diplomáticas. O Brasil está dentro dessa reorganização”, avalia Toledo.
O que observar nesta terça-feira
Para Toledo, mais importante do que esperar grandes anúncios de um eventual encontro é observar o comportamento dos dois presidentes.
“Se Lula e Trump conversarem, o principal sinal será o tom. É preciso observar se continuam elevando o confronto ou se começam a transformar as divergências em negociação”, afirma.
A própria agenda já oferece um próximo teste. Independentemente de um encontro entre os presidentes na ONU, Brasil e Estados Unidos têm uma nova rodada de negociação comercial prevista para o fim do mês no encontro do G20 em Milwaukee.
“Existem divergências políticas sérias, mas também existem US$ 135 bilhões em comércio de bens e serviços entre os dois países. Isso não desaparece por causa de uma declaração política. No fim, Brasil e Estados Unidos precisam encontrar alguma forma de conversar”, conclui Toledo.





