As supostas fraudes nas eleições americanas e as declarações de Bolsonaro

* Daniel Toledo

Nos últimos dias, Bolsonaro fez algumas manifestações a respeito da eleição dos Estados Unidos e ele tem todo o direito de se pronunciar, ou mesmo não concordar com o resultado em âmbito pessoal, mas ele é o presidente da república, apesar de qualquer posicionamento político. Talvez ele ainda não tenha conseguido incorporar a figura de presidente, e por isso segue com o mesmo temperamento e atitudes que tinha enquanto deputado, esquecendo que hoje ele não fala mais em defesa de um pequeno grupo regional, mas em nome de uma nação.

A oratória de Joe Biden sobre o Brasil também não foi das mais felizes, na verdade demonstrou imenso desconhecimento, primeiramente porque ele não sabe o que acontece na Amazônia de fato, depois porque a maneira como ele tratou a questão beirou a agressividade.

Existem algumas razões em relação ao desmatamento no Brasil, pois realmente é o país que mais desmata no mundo, mas ainda que ele faça realmente um fundo monetário de 20 bilhões de dólares, o valor não cobriria dois anos dos investimentos reais necessários, especialmente considerando a série de gastos com policiamento federal e ambiental, bases, helicópteros, agentes, monitoramento etc. E após este período, esta conta seria exclusivamente do Brasil para manter tal estrutura.

Os embargos comerciais que Biden citou também seriam muito convenientes para os Estados Unidos.  Dessa forma, o Brasil deixaria de competir com determinados produtos de exportação e eles teriam essa vantagem no mercado, sendo que atualmente são o segundo maior exportador do mundo. Os 20 bilhões de dólares seriam muito pouco perto do que poderia ser arrecadado com um embargo no Brasil. Então, esta ameaça soa muito mais como um interesse econômico do que uma preocupação com a preservação da floresta.

Por outro lado, o presidente Jair Bolsonaro não pode intervir no processo eleitoral americano, afinal quem decide são eles, por meio do voto e dos delegados de colégios eleitorais que computam os votos. Ele mesmo afirmou por diversas vezes que não interviria na Venezuela que é nossa vizinha. Por que então deveria se meter na decisão norte americana?  Caso tenha ocorrido alguma irregularidade, é papel da suprema corte daquele país definir.

Inclusive, Trump tem causado preocupação. Algumas redes sociais do atual presidente foram silenciadas, mas isso não ocorreu por conta da polarização política e sim porque ele estava incitando a revolta de seus eleitores para realizar manifestações. Isso posto, é importante lembrar que grande parte da população americana aprova e tem porte de armas, seja para a autodefesa ou para se proteger contra um governo tirânico, como relata a 2ª Emenda Constitucional. Esse silenciamento provavelmente se deu para evitar conflitos mais sérios.

As denúncias de Trump sobre as fraudes na eleição também foram muito abrangentes, então passei a estudar com mais afinco as situações que ocorreram. Por exemplo, uma pessoa que se deparou com um caminhão do correio que teve 900 cédulas de votação extraviadas. Quando isso ocorre, além de fotografar e registrar imagens, é necessário chamar a polícia para realizar um boletim de ocorrência e, a partir disso, serão tomadas as decisões jurídicas e criminais perante o acontecimento.

Procurei aproximadamente 80 das denúncias, mas apenas duas delas têm essa procedência, em Wayne County, que fica em Detroit, no Michigan. Nessa ação, foram totalizadas 11 mil assinaturas em um documento em que pessoas alegam ter presenciado algum tipo de fraude nas eleições. Em uma cidade de 200 mil habitantes, esse é um número substancial, mas em um lugar onde há 1.8 milhões de habitantes é irrisório. No entanto, a maioria atestou praticamente as mesmas fraudes. Por exemplo, muitas pessoas alegaram que 80 cédulas foram falsificadas com a mesma assinatura. Em outra, um pai reconheceu a assinatura e dados de um filho falecido, daí surgiu a notícia de que pessoas falecidas teriam votado em Joe Biden.

Ainda assim, 11 mil votos não mudaria a situação de Trump. Em Wayne County, os democratas tiveram 412.600 votos, enquanto os republicanos tiveram 144 mil votos, uma diferença bem alta. Essa é a realidade que precisamos enfrentar.

Em uma entrevista recente com uma analista de segurança nacional, em que ela fala sobre os riscos caso Donald Trump se recuse a iniciar a transição para o novo presidente, reforça que a transição não interfere na segurança do atual governo (com concessão de informações sigilosas ou estratégicas) e muito menos na intervenção da administração atual.

O que acontece é que Joe Biden tem a intenção de realizar a nomeação da sua própria equipe e tudo isso precisa passar pelo FBI para garantir que todos estão aptos aos respectivos cargos. Esse passo importante para Biden é algo que Trump não quer, especialmente se os nomeados forem pessoas com credibilidade em suas áreas, como é o caso da cientista brasileira que vai trabalhar para diminuir a incidência de casos de Covid-19.

De toda forma, também é justo analisar o cenário caso fosse o contrário e Trump tivesse ganhado a eleição com larga vantagem. Parte dos democratas apontavam a possibilidade de revolta dos republicanos em caso de derrota, o que não ocorreu. Se Trump fosse reeleito, será que os democratas não iriam se manifestar nas ruas? Será que os grupos ANTIFA ou BLM não estariam novamente quebrando lojas e se rebelando? É algo que vale pensar a respeito.

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